Se você já se deparou com a frase “o óbvio também precisa ser dito”, provavelmente refletiu sobre isso por um tempo. Trago esse princípio no manifesto GENAI de propósito.
De acordo com o dicionário Michaelis, o “óbvio” pode ser definido como o que é compreendido por intuição e o que é evidente e não deixa dúvida. Na linguagem popular, e talvez um pouco passivo-agressiva, seria algo como “Entendeu ou quer que eu desenhe?”.
Ao decorrer do texto, trago algumas provocações de como o óbvio deve ser explicitado não somente com as IAs generativas, mas com os humanos também. Confira!
Afinal, por que o óbvio também precisa ser dito nos prompts?
Quando escrevemos um prompt, a IA generativa não enxerga “bom senso” nem contexto emocional. É uma combinação de padrões estatísticos aprendidos nos dados de treinamento.
Infelizmente, esses padrões estatísticos, que preveem o que seria a próxima palavra mais provável, podem reproduzir vieses da sociedade e apresentar alucinações na resposta.
Os vieses são distorções nas decisões de uma IA generativa por causa de dados e regras usadas no treino, fazendo o sistema favorecer certos padrões, sem perceber.
Já as “alucinações” são respostas que parecem coerentes, mas estão incorretas ou foram simplesmente inventadas. Quase como um gerador de “lero-lero”.
Um exemplo interessante de viés acontece quando modelos tendem a nos elogiar em excesso, adotando um tom de bajulação constante. Isso não significa que a IA queira agradar, mas que foi ajustada para responder de forma segura, gentil e positiva.
No excelente vídeo do filósofo Leandro Karnal, em debate com o Claude, da Anthropic, ele questiona a bajulação da IA generativa e recebe como resposta que ela foi treinada assim a partir de conversas humanas onde o elogio costuma abrir portas.
Uma boa lição que fica é que, quando não dizemos o que queremos nos prompts, recebemos o raso e o medíocre. E convenhamos que o que se destaca não é e nem deve ser o “mais do mesmo”.
Talvez dizer o óbvio seja tornar explícito, mesmo que cause desconforto inicial, o que implícito nos parece ser absurdo ter que comentar.
O que é óbvio para mim pode ser óbvio para outras pessoas?
Sempre que pensamos “nem precisava falar isso”, abrimos espaço para ruído na comunicação. No dia a dia, fazemos isso o tempo todo.
Quando mandamos uma mensagem escrita ou um áudio, assumimos que a outra pessoa entendeu tudo. Só que nem sempre é assim tão notório.
Com a IA generativa, esse movimento é amplificado, porque tudo o que não evidenciamos vira espaço para interpretação genérica, estereotipada ou errada.
Eu vivi isso na prática ao participar do canal da Sofia Sá, especialista em pedagogia do Ensino Superior. Temos uma formação de geração de imagens com IA para professores em Portugal e, na apresentação, algo curioso aconteceu.
Nos nossos slides, estava esta imagem abaixo para mostrar o resultado de um prompt com o método 3W1H. No prompt dizia: “Biblioteca universitária moderna e minimalista, fundo com estantes de madeira (…)”

Eis que um professor brincou “Uma biblioteca sem livros?”. Era algo óbvio que uma imagem de uma biblioteca deveria ter os livros, mas não para a IA generativa, que se concentrou somente no que importava.
No meu prompt, eu descrevia estantes de madeira, ambiente limpo, fundo desfocado, mas em nenhum momento dizia que as prateleiras deveriam estar cheias de livros.
Eu deixo essa imagem de propósito na formação, até mesmo para identificar quem poderia questionar o prompt e o resultado.
Só que os professores não têm como adivinhar que depois do intervalo há um exercício específico em que edito a imagem e incluo os livros. Faltou eu falar o meu óbvio.
No artigo “Se o óbvio precisa ser dito, ele é óbvio pra quem, afinal?”, da coordenadora de TI Shined Angel, há dois trechos com os quais concordo muito e que referencio aqui para refletirmos:
“(…) o ‘óbvio’ pode ser um emaranhado de construções pessoais. ‘Chover no molhado’ e ‘ter que desenhar’ é muito importante quando falamos sobre pessoas e comunicação assertiva.”
“Comunicação eficaz é fundamental para garantir que todos estejam alinhados e trabalhando em direção aos mesmos objetivos. Isso inclui a comunicação sobre coisas que parecem óbvias.”
Se nem o que sentimos é óbvio, por que julgamos que a IA generativa entende?
Julgamos isso pelo fato de, talvez, pressupormos que a IA generativa, por ter a premissa de “inteligente”, acompanhe nosso raciocínio, mesmo que a gente não escreva ou fale.
De acordo com a “Filosofia do Implícito”, baseada na obra do filósofo e psicólogo Eugene Gendlin, toda formulação explícita se apoia em um campo muito maior de compreensão implícita.
Antes de termos palavras, a gente sente a situação, mas nem sempre traduzimos bem o que sentimos. Nossas escolhas nem sempre são bem explicadas.
Quando finalmente dizemos algo, aquela frase carrega uma espessura de experiências, memórias e significados que não couberam no enunciado.
No texto “Thinking Beyond Patterns: Body, Language, and Situations”, Eugene Gendlin diz, basicamente, que a vida real nunca cabe inteira nas nossas categorias mentais.
Na prática, funcionamos com conceitos, regras e definições, mas são um recorte, nunca a situação completa. Por trás das ideias óbvias, existe uma coletânea de contextos.
Quando trago isso para o uso de IA generativa, fica ainda mais óbvio o porquê de eu ressaltar que “todo prompt deve ser melhorado”, pois “o óbvio também precisa ser dito”.
O modelo só enxerga a parte explícita, e não o intrínseco. Inevitavelmente, o primeiro prompt quase nunca dá conta, porque traz só um pedaço do que a situação exige.
A cada resposta estranha ou rasa, o convite é voltar à experiência, notar o que ainda não virou linguagem e fornecer mais contexto.

Se o óbvio também precisa ser dito, como praticar isso?
Agora que já entendemos que somos pessoinhas complexas e que o óbvio não é tão óbvio assim, resolvi focar em dicas práticas neste bloco.
A seguir, compartilho 4 métodos simples que podem nos ajudar a tornar o nosso óbvio visível para outras pessoas e para modelos de IA generativa.
1. Forneça mais contexto
Isso é algo que já utilizo com frequência, principalmente em prompts mais complexos. A ideia é fornecer o tema e solicitar que a IA generativa me faça cinco perguntas de verificação.
Essa abordagem é uma maneira de identificar se a IA generativa captou a minha linha de raciocínio, bem como se tem algo que eu esteja esquecendo de mencionar.
2. Dê exemplos bons e exemplos ruins
Aqui eu ensino pelo contraste. Em vez de só descrever o que eu quero, dou um exemplo bom de formato de saída e outro considerado ruim.
Isso obriga a explicitar critérios que eu tenderia a deixar implícitos, tais como nível de profundidade, tipo de linguagem, foco, detalhes etc.
3. Escreva uma descrição detalhada
Se eu quero uma imagem, por exemplo, e o primeiro adjetivo que vem na cabeça é algo “minimalista”, eu preciso descrever o que quero dizer com isso. O que é óbvio para mim.
Então é importante dar mais detalhes de conceitos que parecem evidentes para a gente. Adjetivações nos prompts como “simples”, “bonito”, “profissional”, “curto”, “inovador” entre outras merecem descrições mais completas.
4. Relembre o papo
As IAs generativas trabalham com uma capacidade limitada de “lembrar” as conversas grandes, por causa da chamada janela de contexto.
Em vez de confiar que o modelo guardou tudo, de tempos em tempos é bom resumir o combinado: “até aqui, decidimos X, Y e Z; mantenha esses pontos nas próximas respostas”.
O óbvio também precisa ser dito porque nem nosso sentir é totalmente visível para outras pessoas ou para a IA generativa. Quando evidenciamos contexto, critérios e limites, deixamos menos espaço para ruídos, vieses e alucinações.
Se este texto te ajudou a repensar como você conversa com humanos e IAs, compartilhe com alguém que vive frustrado com prompts, briefings e expectativas não ditas.

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