Uma parte relevante dos resultados que obtemos com IA generativa não depende apenas da interface, do modelo ou de ferramentas. O repertório de vida pode ajudar demais.
Li um texto da jornalista Cléo Almeida que provoca uma reflexão interessante e necessária. Ela enfatiza que estamos tão mergulhados em conteúdos genéricos, que parece que nos acostumamos e deixamos de procurar o lado humano.
A facilidade com que obtemos textos, imagens, áudios, vídeos e códigos com IA generativa começa a jogar no mercado muita coisa parecida e até medíocre. Só que onde fica a criatividade para tornar o conteúdo realmente diferente?
Neste artigo, minha ideia é trazer essa reflexão de como podemos alimentar as IAs generativas com bons contextos, ressaltando nossa humanidade. Confira!
Afinal, o que é repertório de vida?
O repertório de vida, também conhecido como repertório sociocultural, é o conjunto de referências, experiências, vivências, aprendizados, observações e interpretações que uma pessoa acumula ao longo do tempo.
Não se trata apenas de ter lido muitos livros, assistido a bons filmes e séries ou escutado músicas de diferentes estilos, embora tudo isso importe bastante.
O repertório também é construído pelas conversas que temos, pelos lugares por onde passamos, pelo que estudamos, pelas responsabilidades profissionais que assumimos e assim por diante.
Duas pessoas podem consumir o mesmo conteúdo e, ainda assim, elaborar percepções completamente distintas sobre ele. O que muda é a leitura que cada uma faz a partir da própria experiência de vida.
Eu, por exemplo, escrevi um texto uma vez sobre como a Juliette Freire, campeã do BBB 21, seria como uma ação da bolsa de valores do tipo small cap que se tornou blue chip.
Essa linha de raciocínio aleatória só foi possível pelo meu repertório de vida, pois já fui ADM do perfil BBB Stats, no Twitter, e tenho pós-graduação em Finanças Estratégicas e Investimentos.
Ou seja, quando há repertório, conseguimos fazer conexões que pareciam viver em mundos completamente diferentes, mas que na nossa cabeça faz sentido.
Construir repertório, portanto, exige que a gente consuma perspectivas distintas e, sempre que possível, consigamos sair da rotina para acumular boas experiências.
Por que o repertório é a base da criatividade?

A criatividade não aparece do nada, como se fosse um truque de mágica. Ela costuma ser resultado do nosso repertório de vida.
Quanto mais elementos uma pessoa consegue articular, maior é a sua capacidade de propor ângulos, exemplos, relações e interpretações menos comuns.
No contexto das IAs generativas, isso fica ainda mais evidente. A IA pode responder com velocidade, reorganizar padrões e oferecer caminhos, mas a qualidade do direcionamento continua sendo responsabilidade humana.
Em uma boa conversa, por exemplo, podemos perceber que nem todas as experiências são individuais. Essa percepção estimula nossa criatividade para sairmos do lugar-comum.
A IA generativa é ótima para tarefas mecânicas, mas quando se trata de entregar algo criativo, inevitavelmente temos que colocar uma pitada de nós mesmos nas instruções.
Quando reconhecemos que o repertório é a matéria-prima da criatividade, passamos a enxergar os prompts de outra maneira. O contexto faz muita diferença no resultado.
O que seriam conteúdos de IA generativa mais humanizados?
Antes de qualquer coisa, preciso definir aqui o que enxergo como conteúdos humanizados, pois assim podemos diferenciar e compreender o direcionamento que deve ser aplicado.
Um conteúdo humanizado não é apenas um conteúdo com frases mais naturais. É um conteúdo que carrega intenção, contexto, referência e uma lógica de construção que revela algum tipo de singularidade.
No caso dos textos, significa ir além de estruturas previsíveis, por isso que todo prompt deve ser melhorado. Um texto mais humanizado tende a apresentar argumentos diferenciados, um tom de voz único, exemplos de vida etc.
Já nas imagens, em vez de pedir “uma foto bonita sobre x assunto”, torna-se relevante aplicar nosso contexto para trazer subtexto e compor melhor as cores, o estilo, o ângulo e a iluminação.
Um vídeo de IA generativa mais humanizado costuma vir de escolhas narrativas com personalidade. Deve apresentar consistência na interpretação dos personagens sintéticos, bem como transições naturais entre os frames.
Quanto aos áudios, principalmente com modelos generativos cada vez mais avançados, fica bem melhor aplicarmos direcionamentos de sotaque e ritmo de fala, deixando a voz bem menos com jeito de robô.
Seja qual for o formato de saída, o repertório de vida faz diferença porque ele qualifica a direção dada. Além disso, tende a ser excelente para revisarmos e criticarmos o que vem das IAs generativas.
Como humanizar IAs generativas com nosso repertório de vida?
Feita a definição do que são conteúdos mais humanizados, agora fica menos complexo saber o que precisa fazer, certo?
Pois bem, como em outros textos que representam os princípios do Manifesto Genai, pretendo trazer algumas dicas práticas que podem ajudar no dia a dia.
Organize sua linha de raciocínio
Antes mesmo do prompt, organize suas ideias em torno do que quer gerar. Isto é, você deve descrever os detalhes do problema e como quer resolvê-lo.
Um dos erros mais comuns no uso de IA generativa é imaginar que basta digitar qualquer comando e esperar que a ferramenta organize sozinha um raciocínio.
É preciso saber, por exemplo, qual é o objetivo do conteúdo, para quem ele está sendo produzido, que tipo de linguagem faz sentido, quais referências precisam aparecer e que delimitações devem ser respeitadas.
Descreva conceitos que parecem óbvios
Outro ponto importante é entender que o óbvio também precisa ser dito, pois muitas das coisas que parecem óbvias para uma pessoa não são necessariamente para uma IA generativa.
Isso acontece porque os modelos generativos operam a partir do contexto explícito que recebem e não daquilo que o usuário supõe que esteja implícito.
Na prática, isso significa que seu repertório precisa ser verbalizado. Se determinada referência cultural, nuance estética, intenção argumentativa ou expectativa de tom é importante para o resultado, ela deve ser detalhada.

Interaja para refinar o conteúdo
Também é importante abandonar a ideia de que o primeiro resultado da IA generativa deve ser, necessariamente, o melhor ou o definitivo.
Em muitos casos, a interação nesse esquema de cocriação funciona melhor quando é compreendida como processo de refinamento.
Essa dinâmica pode ser comparada, em alguma medida, à lógica dos ‘cacos’ no improviso, no teatro, no cinema, em novelas etc. Há uma base roteirizada, mas o resultado ganha vida quando existe troca, ajuste e genuinidade.
Revise se a comunicação parece adequada
É preciso revisar o material gerado com um critério que vai além da simples correção gramatical ou da aparência de organização.
A pergunta central não deve ser apenas se o conteúdo está “certo”, mas se ele comunica de maneira adequada a sua intenção com aquele material.
Essa etapa de revisão exige senso crítico e repertório. É justamente nesse momento que a experiência acumulada faz diferença, porque ela ajuda a perceber se a comunicação está natural, coerente, específica e relevante.
Quando o repertório de vida entra em cena, a interação com a IA generativa muda de patamar. Passamos a fazer perguntas melhores, a estruturar pedidos com mais precisão e a revisar com mais rigor crítico.
Se este texto fez sentido para você, compartilhe o post com alguém que também usa IA generativa no dia a dia e ainda não percebeu o quanto o próprio repertório pode ser útil.

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